Em sua participação na Feira Industrial de Hannover, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou os biocombustíveis em eixo da agenda comercial brasileira. No 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, ele reiterou que o país dispõe de capacidade agrícola e terras a recuperar, e afirmou que o Brasil já teria alcançado a marca de 50% de renováveis na matriz energética — meta que a União Europeia mira apenas para 2050.
A ofensiva presidencial mira diretamente a regulação europeia, que restringe o uso de biocombustíveis feitos a partir de culturas alimentares. Uma revisão em discussão pode colocar o biodiesel de soja na mesma categoria do óleo de palma, o que, na prática, impediria sua chegada aos postos do bloco a partir de 2030. O lobby brasileiro tenta reverter esse caminho, mas esbarra em preocupações ambientais e na narrativa europeia sobre segurança alimentar.
No pavilhão da feira, cena simbólica: Lula subiu em um caminhão produzido no Brasil e brincou sobre a ausência do primeiro-ministro alemão no teste; o anfitrião Friedrich Merz elogiou o compromisso do presidente com a proteção da Amazônia. Entre os temas salientes das conversas oficiais está também a bitributação, questão antiga que trava operações bilaterais e foi mencionada como alvo de intensificação nas negociações, sem, contudo, solução imediata.
A aposta em biocombustíveis como bandeira comercial pode abrir mercados, mas expõe o governo a risco político e econômico se a UE mantiver restrições. A disputa será decidida em negociações técnicas e diplomáticas: sucesso protege cadeias produtivas brasileiras; fracasso amplia pressão sobre o Planalto e sobre o setor agrícola, que depende de previsibilidade para investimentos e exportações.