Um levantamento da Fundação Getulio Vargas que mapeou postagens em 85 grupos abertos do Telegram entre 2015 e 2025 aponta que a chamada 'machosfera' brasileira ultrapassa a dimensão cultural e assume contornos políticos. A conclusão central do estudo, apresentada no episódio do podcast Café da Manhã desta segunda, é que esses espaços não se limitam a trocar ressentimento: reagem à conjuntura, mencionam e posicionam-se em relação a políticos e debatem políticas públicas que consideram alvo a ser neutralizado.
Os pesquisadores do Desinfo.Pop, laboratório da FGV, separaram os grupos em cinco perfis — identidades masculinistas, autoaperfeiçoamento, misoginia, guerra cultural e criptomoedas/investimentos — e constataram que, independentemente da etiqueta, circula um repertório comum. Mensagens não servem apenas para expressar ódio: funcionam como formação ideológica, socializam narrativas e projetam repertórios que podem sair do ambiente virtual. Entre os alvos recorrentes estão mecanismos de proteção às mulheres, com menções à Lei Maria da Penha como exemplo de medida frequentemente atacada no debate interno às comunidades.
A dimensão política identificada pela FGV tem implicações concretas. Quando bolhas online constroem repertório anti‑institucional e alinham-se a discursos eleitorais ou a candidatos, há risco de transposição para o espaço público: campanhas, mobilizações e pressão por revogação ou enfraquecimento de políticas. Para observadores do debate público, o que o estudo descreve é menos um fenômeno linguisticamente isolado e mais um terreno de recrutamento ideológico e de coordenação tácita que pode influenciar atores e agendas.
O episódio do Café da Manhã traz a coordenadora do estudo, Julie Ricard, e detalha as metodologias e evidências que sustentam as conclusões. Publicado no Spotify, o programa é apresentado por Gabriela Mayer e Magê Flores. Do ponto de vista institucional, a pesquisa reforça a necessidade de monitoramento qualificado desses ambientes e de respostas públicas que protejam políticas de proteção e enfrentem, com base técnica, a normalização da misoginia no debate político.