A antropóloga Mirian Goldenberg, autora de A Invenção de uma Bela Velhice e professora da UFRJ, retoma uma questão cotidiana e contundente: a velhofobia — a aversão social ao envelhecer — é reproduzida com frequência por mulheres e atua como força disciplinadora. O exemplo público da atriz Amanda Peet, que falou abertamente sobre o diagnóstico de tumor em 2025 e sobre a escolha de não recorrer a procedimentos faciais, traz voz a dilemas que deixam marcas pessoais e profissionais.
Peet contou que, em meio ao luto pelos pais e à enfermidade, sentiu na pele a competição por juventude em Hollywood — mercado que penaliza a idade e empurra algumas artistas para intervenções estéticas. Em entrevistas, a atriz disse ter medo de perder a própria identidade caso se submetesse a mudanças faciais e definiu que a idade lhe trouxe mais paz interior. O contraste entre a expectativa de manter aparências e a realidade da saúde e da família é argumento central da coluna de Goldenberg.
A crítica central da autora é dupla: por um lado, a indústria cultural e o mercado cosmético fabricam urgência; por outro, normas sociais fazem com que mulheres se julguem entre si, reproduzindo a mesma lógica punitiva. Esse fenômeno tem custo concreto — exclusão de oportunidades profissionais, trade-offs entre saúde e imagem, e uma moralidade estética que reduz a autonomia feminina. Do ponto de vista social, a velhofobia funciona como morte simbólica: envelhecer passa a significar perda de valor público.
A proposta de Goldenberg, ancorada em décadas de pesquisa sobre envelhecimento e autonomia, não é romantizar as dificuldades da idade, mas deslocar o foco: preservar propósitos e liberdade de escolha é mais valioso do que preservar uma aparência jovem a qualquer preço. A discussão exposta pelo caso Peet convoca uma resposta cultural — e, em setores como entretenimento e mercado de trabalho, mudanças práticas — para que envelhecer deixe de ser penalizado e volte a ser vivido com dignidade.