O governo federal determinou nesta sexta-feira (24) o bloqueio de Kalshi, Polymarket e outras plataformas do chamado mercado de previsão. As empresas permitem comprar contratos binários — tipo 'sim' ou 'não' — sobre eventos reais, como resultados eleitorais, partidas esportivas, finais de reality shows ou desfechos da vida de celebridades. A medida impede o acesso aos sites no país e interrompe planos de atuação local.
No modelo comercial, o comprador adquire um contrato que paga se o evento ocorrer; caso contrário, perde o valor investido. As plataformas defendem que os bônus são formados pelos aportes dos participantes, com negociação de títulos que pode ocorrer a qualquer momento, de forma parecida com instrumentos financeiros. O setor ganha receita por taxas, tráfego e venda de dados estatísticos, embora nem sempre cobre corretagem como casas de aposta tradicionais.
O mercado já tem dimensão global: movimentou US$ 51 bilhões em 2025 e atraiu projeções ambiciosas — a consultoria Bernstein estima fluxo potencial de US$ 1 trilhão até 2030. Kalshi foi avaliada em US$ 22 bilhões após rodada que contou com investimento do Coatue Management; Polymarket atingiu US$ 15 bilhões após captações recentes. A Kalshi afirmou ter planejado expansão para mais de 140 países, incluindo o Brasil, e volumes da plataforma chegaram a US$ 52 bilhões.
A decisão do Executivo brasileiro interrompe esse plano de expansão e cria custo político e econômico: empresas e investidores veem maior risco regulatório, usuários perdem acesso a serviços e dados podem ficar inacessíveis ao mercado local. Há, também, um nó institucional óbvio: países que já regulam apostas e valores mobiliários tratam a atividade de formas distintas — 53 países proibiram ou restringiram esses mercados — o que complica a definição de políticas públicas coerentes.
Além de frear negócios, o bloqueio reabre o debate sobre como conciliar inovação financeira com proteção ao consumidor e conformidade tributária. A medida alarga a incerteza para plataformas que consideravam o Brasil um mercado estratégico e impõe ao poder público a necessidade de regras claras: sem normas definidas, decisões punitivas podem reduzir concorrência e empurrar investimentos para outras jurisdições.