A junta de Mianmar anunciou nesta sexta-feira uma ampla anistia de Ano Novo que reduziu a pena da ex‑líder Aung San Suu Kyi e beneficiou o ex‑presidente Win Myint. O pacote, promulgado logo após Min Aung Hlaing assumir a Presidência, comuta todas as penas de morte e prevê a libertação de mais de 4.000 detidos, além de reduzir em um sexto sentenças inferiores a 40 anos — uma regra que, segundo fonte próxima, "se aplica igualmente" a Suu Kyi.

Vencedora do Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, de 80 anos, cumpre atualmente uma pena de prisão por acusações de natureza política desde o golpe de 2021. A ONU e defensores dos direitos humanos pediram sua libertação imediata; o alto comissário Volker Türk reiterou a exigência diante do histórico de julgamentos opacos conduzidos pela junta. A anistia também liberou Win Myint, que, segundo porta‑voz do partido dissolvido, está em bom estado de saúde.

O pacote coincide com o Thingyan, festa tradicional de renovação em que governos birmaneses frequentemente anunciam perdões. Para o novo presidente — ex‑chefe das Forças Armadas, de 69 anos —, trata‑se de um esforço de "reconstrução nacional" que anula as penas capitais e reduz penas como gesto de conciliação. Críticos e analistas, porém, classificam as medidas como cosméticas: a transição de poder foi acompanhada por eleições contestadas e por uma aparente manutenção do comando militar em posições-chave.

Do ponto de vista político, a anistia tem dupla leitura: por um lado, pode aliviar pressão externa e criar espaço para negociações; por outro, não resolve a opacidade do Judiciário nem reverte as mais de 30 mil detenções políticas registradas desde o golpe, segundo organizações de apoio a presos políticos. Em suma, trata‑se de uma concessão de curto prazo que ameniza o custo político imediato, mas dificilmente dissipa as dúvidas sobre a intenção real da junta em abrir espaço para um retorno à normalidade democrática.