O calor extremo já não é cenário remoto: mata, piora doenças e esvazia o espaço público. Em abril, o governo federal avisou sobre a alta probabilidade de um El Niño severo no segundo semestre de 2026. A discussão sobre resfriamento urbano ganhou espaço na COP30, mas a transição do debate para a ação permanece lenta. As miniflorestas urbanas — plantios densos de espécies nativas em áreas pequenas — surgem como ferramenta concreta de adaptação, pouco incorporada à agenda pública.
Modelos concentrados, em lotes de 200 a 500 m², conseguem formar cobertura vegetal em poucos anos e já apresentam ganhos mensuráveis. Estudos da Earthwatch Europe com mais de 250 miniflorestas no Reino Unido indicam reduções de temperatura do ar de cerca de 3°C em áreas com dois anos e até 6°C em plantios de três anos, em comparação com o entorno. No Brasil, iniciativas como a coleta de dados da Formigas-de-Embaúba em parceria com a USP começam a produzir evidências locais, mas ainda são exceções.
Há exemplos práticos lá fora e aqui: Holanda e Reino Unido acumulam centenas de microbosques; Santiago lançou programa para 33 bairros e Buenos Aires inaugurou seus primeiros microbosques. No país, Campinas lançou meta municipal de 200 miniflorestas, Belo Horizonte planta desde 2022 e São Paulo criou o programa Bosques Urbanos com meta de 50 áreas até 2028. A ONG Formigas-de-Embaúba afirma ter implantado mais de 50 plantios entre 2021 e 2025 em parceria com prefeitura e iniciativa privada — sinais positivos, porém de escala limitada.
Escalar a solução passa por reconhecer limitações: o Brasil tem biomas diversos e não cabe um modelo único. É preciso adaptar desenhos de plantio, envolver comunidades e integrar ações a programas permanentes de arborização urbana. O Plano Nacional de Arborização, lançado na COP30, não menciona explicitamente as miniflorestas — ausência que evidencia a distância entre diagnóstico e política pública. Com árvores levando anos para entregar sombra e resfriamento, a omissão hoje cobra preço amanhã; há base técnica e experiências, falta vontade política e recursos para transformar pilotos em política de massa.