A Rio Fashion Week encerrou a temporada com desfiles que mesclaram arte, regionalismo e espetáculo. O ápice em escala foi a apresentação da Misci na Praça da Apoteose: uma produção megalomaníaca embalada por 80 ritmistas da bateria da Beija-Flor, que transformou o sambódromo em passarela e elevou o formato a uma espécie de performance institucional. O diretor criativo Airon Martin batizou a coleção de “Escapismo Tropical” e buscou, segundo a marca, aproximar o vestuário de um patrimônio cultural que dialoga com o samba.
Num contraste mais contido, a Handred — prestes a completar 15 anos — recebeu elogios como o melhor desfile da semana. Sob o comando de André Namitala, a marca mostrou uma coleção de inverno em tons fechados, centrada em marrons e sedas mais pesadas, com silhuetas volumosas e cortes que privilegiam proteção e deslocamento do corpo. A proposta, nascida de uma rotina criativa que incluiu meditação guiada, foi apresentada com coral ao vivo, o que reforçou o tom introspectivo e afastou o clichê festivo carioca.
A Blue Man, por sua vez, assumiu o Rio em versão estereotipada — e confortável — para o público. Com imagens das praias da zona sul nos telões, personagens típicos da orla e a presença de Helô Pinheiro abrindo a passarela, o desfile celebrou a praia, o corpo esculpido e a leveza do mercado de moda praia. Figuras conhecidas e uma finalização com celebridades consolidaram um clima alto-astral que contrasta com a sobriedade da Handred.
O saldo da semana revela duas leituras: a vitalidade do calendário de moda carioca e a tensão entre espetáculo e produto. A Misci provou que um desfile na Sapucaí tem poder simbólico e de repercussão, mas também expõe um risco editorial: quando a cenografia e a trilha dominam, exige-se esforço extra para avaliar as roupas. Em um mercado que precisa vender coleções, o desafio para as marcas é equilibrar ambição cênica e clareza das propostas para o consumidor.