João Pereira Coutinho observa, com ironia contida, um fenômeno que já deixou de ser apenas folclore turístico: a peregrinação diante da 'Mona Lisa' transformou-se num rito de exibição. Segundo o colunista, a meta do visitante não é contemplar a obra, mas documentar a própria presença. O gesto litúrgico da selfie substitui a pausa, e a arte vira cenário para uma performance cujo valor real é a prova fotográfica.

O efeito prático dessa lógica é duplo e visível: obras vizinhas, inclusive outras telas de Leonardo e mestres renascentistas, permanecem praticamente invisíveis enquanto a multidão se aglomera por um sorriso. Coutinho lembra casos análogos — como a Vigília Pascal de Notre‑Dame — em que o enquadramento público cede espaço à vaidade individual. O resultado é melancólico: muitas viagens registradas em imagens, sem lembrança vivida.

Há aqui uma consequência administrativa e cultural que merece atenção pública. Museus e cidades lucram com o turismo de massa, mas enfrentam desgaste de acervos, erosão da experiência e dificuldades de gestão de fluxo. A prioridade pelo espetáculo reduz a profundidade do contato com o patrimônio e impõe custos de conservação que não se resolvem apenas com bilhetes e visitantes em massa. É um problema que atravessa diretrizes de gestão cultural e políticas de turismo.

A imagem que Coutinho propõe — a Mona Lisa sorrindo com o circo diário que tem à frente — funciona como metáfora de um conflito contemporâneo: receita versus experiência, consumo imediato versus preservação de sentido. Não se trata de demonizar o turismo, mas de reconhecer que, se nada mudar, a mercantilização da visita compromete o próprio objeto que se pretende celebrar. A política cultural e a administração dos espaços públicos terão de abrir um debate prático sobre privilégios, limites e qualidade do acesso.