Em Paraupebas, no sudeste do Pará, mulheres têm empreendido com produtos ligados à bioeconomia — do mel à cerâmica e às biojoias feitas com sementes — transformando conhecimento tradicional em fonte de renda. As iniciativas surgem na transição entre a Floresta Nacional de Carajás e áreas de mineração a céu aberto, o que torna o modelo produtivo ao mesmo tempo estratégico e vulnerável à dinâmica territorial.

Uma iniciativa consolidada na região é a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA), com cerca de uma década de atuação e composição familiar. A associação trabalha tanto com apicultura convencional quanto com meliponicultura, técnica que recoloca abelhas sem ferrão na cadeia de produção e contribui para a conservação de polinizadores. Na prática, mulheres assumem funções de gestão, controle de embalagem, rotulagem e comercialização, enquanto homens atuam mais no apiário — uma divisão que reconfigura papéis tradicionais.

Os dados nacionais reforçam a intensidade desse movimento: só no ano passado, mais de 2 milhões de pequenos negócios abertos foram liderados por mulheres, segundo levantamento do Sebrae. Quatro em cada dez empreendimentos criados em 2025 tiveram liderança feminina, número que superou o ano anterior em cerca de 320 mil registros. No conjunto da década, a quantidade de mulheres donas de negócios subiu de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em 2025, um avanço de 27%. Ainda assim, elas não chegam a metade dos novos negócios no país; no Pará, a participação feminina em 2025 ficou em 37,6%.

O caso de Paraupebas ilustra ganhos e limites: a bioeconomia permite alinhar geração de renda, valorização cultural e conservação, mas enfrenta gargalos estruturais — acesso a mercados, crédito, formalização e formação técnica — que restringem escala e sustentabilidade financeira. A proximidade com grandes empreendimentos minerários adiciona complexidade institucional e exige políticas de apoio mais claras, parcerias de responsabilidade social e canais que integrem produção local às cadeias regionais e nacionais.

A trajetória dessas empreendedoras tem impacto social direto: ampliação da autonomia, retomada de estudos e redistribuição de tarefas domésticas e comunitárias. Para transformar esse avanço em desenvolvimento duradouro é preciso combinar iniciativas de capacitação, acesso a financiamento e políticas públicas que reconheçam a bioeconomia como vetor de desenvolvimento rural sustentável — uma agenda que demanda coordenação entre governos, setor privado e organizações locais.