O artigo do colunista do New York Times Thomas L. Friedman — veterano do jornalismo internacional e três vezes vencedor do Pulitzer — usa duas imagens recentes da imprensa israelense como síntese da política externa e de segurança de Benjamin Netanyahu. A primeira mostra um soldado israeluense usando uma marreta para destruir uma estátua de Jesus numa vila maronita do sul do Líbano; a segunda registra ministros de direita inaugurando o assentamento reestabelecido de Sa‑Nur, na Cisjordânia, enquanto governo e imprensa comentavam a legalização de cerca de 140 postos avançados. Para Friedman, as fotos encapsulam uma lógica recorrente: ação militar e expansão territorial sem projeto político capaz de transformar ganhos táticos em segurança duradoura.

O problema, como analisa o editorialista, não é apenas o uso repetido da força, mas a ausência de uma estratégia que traduza vitória militar em resultados estratégicos e diplomáticos. Sem um esforço crível pela solução de dois Estados, argumenta Friedman, Israel perde a possibilidade de isolar o Irã de forma sustentável, dificulta a normalização com a Arábia Saudita e torna improvável que Líbano e Síria façam paz formal. A narrativa de força — simbolizada pela marreta e pelas bandeiras em Sa‑Nur — amplia o isolamento regional e fragiliza a posição israelense na arena diplomática.

Há também um custo político externo e interno. Externamente, a postura de Netanyahu contrasta com compromissos americanos recentes: Friedman lembra que, em setembro de 2025, Donald Trump afirmou que não permitiria a anexação formal da Cisjordânia. Internamente, a estratégia alimenta a base de colonos e a direita, mas mina condições para uma saída política que garanta segurança e reconhecimento. O efeito prático é dupla perda: menos aliados entre governos árabes e menos espaço para pressões moderadoras sobre a própria sociedade israelense.

O diagnóstico de Friedman funciona como um aviso: insistir na tática do esmagamento — sem políticas que construam legitimidade e parceiros — tende a gerar isolamento, reações regionais e maior margem para que atores externos explorem o vácuo político. Para o governo israelense, a escolha é política: persistir na lógica atual e pagar o preço de maior tensão e perda de apoio; ou recalibrar prioridades, buscando meios políticos de converter poder militar em segurança sustentável. A crítica do colunista não é militante; é um alerta pragmático sobre consequências concretas para a estabilidade regional e para a própria capacidade de defesa de Israel.