A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk informou ao Ministério da Saúde e ao Conasems que está disposta a retomar o fornecimento de insulina humana ao SUS desde que um contrato seja assinado até o fim de maio. A proposta prevê a venda de 100 milhões a 125 milhões de canetas de insulina produzidas na fábrica de Montes Claros (MG), com estimativa de custo acima de R$ 1,5 bilhão com base em contratos anteriores da empresa. A companhia diz que manterá o plano de interromper a fabricação caso não haja acordo dentro do prazo estipulado.
O anúncio sucede anos de redução de entregas ao setor público e enquadra-se no reposicionamento do mercado farmacêutico, em que grandes fabricantes migraram parte do foco para terapias para emagrecimento — com destaque para o Ozempic, carro-chefe da Novo Nordisk — e novos concorrentes. O resultado foi o agravamento dos ciclos de desabastecimento no SUS e no programa Farmácia Popular desde 2023, levando o ministério a comprar insulinas sem registro da Anvisa, em sua maior parte importadas da China.
A aquisição de produtos sem registro despertou críticas da indústria nacional e de sociedades médicas pela ausência da avaliação de segurança e eficácia realizadas pela Anvisa. A principal fornecedora desse modelo, a distribuidora GlobalX, trouxe insulina fabricada pela Zhuhai e em 2025 teve parte das canetas substituídas após reclamações sobre falhas e embalagens danificadas. O episódio expõe o custo prático da perda de fornecedores tradicionais: menores garantias de qualidade em troca de oferta imediata.
Politicamente, o prazo imposto pela Novo Nordisk coloca o governo diante de uma troca clara: assinar rapidamente para restabelecer oferta regulada e local ou manter o processo licitatório aberto e continuar dependente de importações sem registro. O ministério diz que a licitação está prevista para os próximos meses, que os processos obedecem critérios técnicos e de menor preço e que adotou medidas para garantir abastecimento, além de pedir prioridade da Anvisa na análise de novos registros. Mesmo assim, a capacidade de negociação do governo, o impacto orçamentário e a necessidade de assegurar qualidade para pacientes tornam a decisão sensível do ponto de vista político e administrativo.