O governo federal avança na formatação de um programa voltado à renegociação de dívidas de pessoas físicas, uma prioridade diante do alto endividamento das famílias e do calendário eleitoral. A proposta prevê a substituição de débitos antigos — especialmente cartões de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado — por um novo financiamento com juros menores e prazos mais longos. Integrantes do governo afirmam que a iniciativa tem intenção operacional de curto prazo: serão três meses de vigência e a meta é colocar o programa em prática antes do período eleitoral de 2026.
O desenho envolve garantia do FGO (Fundo de Garantia de Operações), abastecido com recursos federais, que reduziria o risco assumido pelos bancos e permitiria baratear o crédito. As instituições financeiras dariam desconto sobre o saldo devedor, que pode chegar a 90%, e ofertariam uma nova linha com taxa limitada a até 1,99% ao mês. Trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105) poderiam sacar até 20% do saldo do FGTS para liquidar pendências, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan. A expectativa oficial é que sejam repactuadas entre R$20 bilhões e R$30 bilhões, dentro de um universo estimado entre R$70 bilhões e R$100 bilhões em dívidas elegíveis.
Há detalhes práticos e dissensos que poderão afetar alcance e custo da medida. O desconto será proporcional ao tempo de atraso — quanto mais antiga a dívida, maior o abatimento — e a negociação terá de ser feita em cada instituição onde o devedor tiver pendências. O governo discute incluir débitos com atraso entre 61 e 360 dias; os bancos propõem ampliar o intervalo para dívidas com mais de 91 dias e até três anos, faixa que exige provisões maiores nos balanços. Também está em debate estender o programa a MEIs e a micro e pequenas empresas.
Do ponto de vista político e econômico, a iniciativa oferece alívio a famílias vulneráveis e um instrumento de comunicação antes da eleição, mas acende alertas. Economistas e técnicos internos manifestam preocupação com a leitura da medida como estímulo ao consumo, o que pode pressionar a inflação; há ainda risco fiscal decorrente do uso do FGO — recurso público que cobre inadimplências — e possibilidade de efeito moral se a expectativa de perdão de parte da dívida se generalizar. O sucesso prático dependerá de detalhes operacionais, da postura final dos bancos sobre prazos e provisões e da capacidade do governo de controlar custos e comunicar limites do programa.