A direção da Universidade de São Paulo vive seu primeiro grande teste político neste semestre. O Conselho Universitário aprovou em 31 de março a Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace): R$ 4.500 mensais, pagos em parcelas fixas e irreajustáveis por até 24 meses a docentes em regime de dedicação integral que assumirem atividades consideradas estratégicas. A iniciativa, promessa de campanha do reitor Aluisio Segurado, tem custo estimado de R$ 238,44 milhões por ano.
A reação foi imediata. Servidores técnico-administrativos aprovaram greve por unanimidade, classificando a medida como elitista e denunciando tratamento desigual: enquanto professores ganham um adicional que representa, no salário inicial de um professor-doutor (R$ 16.353,01), acréscimo de 27,5%, os demais funcionários dizem não ver resposta às suas demandas. O Sintusp exige reajuste fixo de R$ 1.200 e recomposição das perdas desde 2012, calculadas em 14,5%. A adesão ainda é incerta, mas a paralisação já afeta serviços e levou ao adiamento de provas.
Estudantes também marcaram paralisação: representantes de ao menos 40 cursos anunciaram ausência nas aulas e o DCE pressiona por prioridade na permanência estudantil, com aumento e ampliação de bolsas do Pafpe — hoje 2.500 vagas, bolsas integrais de R$ 885 e parciais de R$ 335 — e proposta de elevação para R$ 1.000 e R$ 500. Denúncias recentes sobre a qualidade dos restaurantes universitários, incluindo relatos de refeições estragadas, tornam a insatisfação mais ampla e com potencial de desgaste público.
A gestão argumenta que a Gace visa valorizar e reter talentos e ampliar a excelência acadêmica, e afirma estudar propostas para os técnico-administrativos, além de reajustar benefícios como vale-alimentação e vale-refeição. Ainda assim, o episódio acende um alerta institucional: a aprovação pelo conselho expõe uma tensão entre estratégia de atração docente e custo político-institucional. Para o reitor nativo da campanha, o desafio imediato é traduzir discurso de valorização em medidas percebidas como mais equânimes, sob risco de ver a agenda de gestão ser consumida por conflito e interrupções no calendário acadêmico.