Menos de seis meses depois da realização da COP30, obras vendidas como legado para Belém já apresentam problemas visíveis. O Parque Linear da Doca, financiado em parte por recursos da binacional Itaipu e orçado em mais de R$ 300 milhões, sofre inundações recorrentes: chuvas e maré alta — que chegou a 3,5 metros em março — alagaram a avenida e o entorno, prejudicando tráfego e pedestres. Vídeos que circulam mostram moradores tendo de atravessar trechos inundados.

Outra intervenção recente, o Parque Linear da Nova Tamandaré, inaugurado em novembro e custando R$ 154 milhões com financiamento do BNDES, também ficou submersa após mais de 26 horas de precipitação intensa. Segundo o Inmet, o acumulado atingiu cerca de 150 mm, afetando dezenas de milhares de pessoas. A repetição de alagamentos expõe limites técnicos nas soluções adotadas e a vulnerabilidade de áreas transformadas sem ajustes na bacia hidrográfica.

Especialistas ouvidos pelo material-base destacam que intervenções pontuais não resolvem problemas de drenagem quando o entorno mantém sistemas antigos e tubos coletores com diâmetros insuficientes; também lembram que a área permeável implantada é muito pequena frente ao necessário para uma bacia urbana — fato que reduz a capacidade natural de absorção. Técnicos apontam ainda que alterações no canal e a instalação de comportas não substituem revisão ampla do sistema de escoamento.

O governo do Pará afirma não identificar falha de planejamento e diz que foram implantadas rede de esgotamento e comportas em funcionamento, além de ações de plantio. Mesmo assim, a retirada em março de parte da passarela da avenida Júlio César por risco de desabamento — após colisões de caminhões no ano anterior — reforça problemas de projeto e segurança. Do ponto de vista público, o caso impõe revisão técnica imediata, custo adicional para correções e um desafio político: justificar o gasto e garantir que obras de visibilidade não se convertam em passivos operacionais e reputacionais.