François Ozon decidiu levar ao cinema O Estrangeiro, de Albert Camus, após reler o romance em 2024. Exibido na última edição do Festival de Veneza, o filme chegou cercado de expectativa: adaptinguma obra-canônica sempre exige equilíbrio entre fidelidade e invenção, e Ozon afirmou sentir o peso dessa tarefa.
Benjamin Voisin encarna Meursault, o francês apático que, em um impulso, mata um homem argelino. O diretor preserva o núcleo existencial do romance, mas altera a montagem narrativa: o longa começa com Meursault na prisão, já confessando o crime, gesto que explicita desde o início a dimensão política da história.
A opção pelo preto e branco foi outro ponto de tensão. Para críticos, a fotografia suaviza a aspereza do livro; para Ozon, a monocromia recusa distrações cromáticas, cria atmosfera e remete ao sol implacável do texto — além de ter ajudado a contornar limitações orçamentárias e a impossibilidade de rodar na Argélia, o que levou a produção ao Marrocos.
Mais do que uma transposição literal, a adaptação atua como releitura contemporânea: desloca o olhar para a vítima e não ignora a presença do colonialismo que o romance, originalmente, tratou de maneira diferente. O resultado dividiu plateias e críticos em Veneza, abrindo debate sobre até que ponto uma obra clássica pode — ou deve — ser reposicionada para nosso tempo.