Um ofício da Polícia Federal obtido pela imprensa aponta os municípios acreanos de Assis Brasil e Epitaciolândia como os pontos de maior vulnerabilidade para a entrada e saída de entorpecentes na região da Amazônia. Assis Brasil, na tríplice fronteira com Peru e Bolívia, e Epitaciolândia, na divisa com Cobija (Bolívia), são apontados pela corporação devido ao intenso fluxo na BR-317 e em estradas vicinais que facilitam o escoamento terrestre.
O documento elenca três eixos principais de atuação do crime organizado: rotas terrestres (BR-317/BR-364), rotas fluviais pelos rios Negro, Solimões, Acre e Iaco, com origem na Colômbia e no Peru, e rotas aéreas operadas por helicópteros e aviões clandestinos. A PF também chama atenção para o uso de áreas rurais da Reserva Extrativista Chico Mendes como locais de desvio de fiscalização, o que agrava o problema ambiental associado ao tráfico.
Segundo o ofício e levantamento da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), as principais facções nacionais — Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho — estão fortemente estabelecidas na Amazônia, enquanto o grupo conhecido como B13 tem alcance importante no Acre. Pequenos grupos locais atuam na compra junto a fornecedores estrangeiros e na redistribuição para outros estados. A Senappen reafirma que a cocaína é o principal motor do crime organizado na região e descreve rotas estratégicas como a Rota Solimões (fluvial) e a BR-364 (terrestre).
Há medidas federais citadas no ofício, como o Plano AMAS, a criação de um Centro de Cooperação Policial Internacional e a Diretoria da Amazônia e Meio Ambiente na PF, além de operações conjuntas com países vizinhos. Ainda assim, o encerramento da CPI do Crime Organizado sem relatório final representa, na leitura dos documentos, uma oportunidade perdida para consolidar recomendações e cobrar respostas públicas mais robustas. A atuação pontual e a cooperação limitada com Peru e Bolívia deixam espaço para recorrência das rotas transfronteiriças.
O quadro descrito combina risco à segurança, à soberania e ao meio ambiente: além do tráfico, as facções aparecem vinculadas a crimes ambientais como garimpo ilegal, desmatamento e grilagem, ampliando o impacto social e econômico na região. O diagnóstico da PF acende alerta para a necessidade de ações sustentadas de inteligência, infraestrutura de controle de fronteiras, articulação internacional e respostas judiciais efetivas, sob risco de perpetuação de um mercado ilícito que já se moderniza em rotas e modos de operação.