No episódio mais recente do podcast Meu Inconsciente Coletivo, a psicanalista Marília Velano e a colunista Tati Bernardi discutem um sentimento recorrente entre jovens: a decepção com a passagem da infância para a adolescência. Velano compara esse desencanto a uma desilusão amorosa para explicar a intensidade do desapontamento. Para a especialista, muitos adolescentes chegam à fase com expectativas infladas e poucos recursos emocionais para lidar com o desamparo quando a realidade não corresponde aos sonhos.
A conversa volta atenção para o papel dos pais: aceitar que o filho não é extensão de um projeto pessoal e resistir à tentação de controlar excessivamente. A psicanalista aponta que a presença dos responsáveis é essencial, mas que invadir privacidade ou cercear decisões pode agravar a apatia e adoecer a trajetória do jovem. Em vez de forçar resultados, a recomendação é compreender essa “travessia” como uma fase irregular, em que a função parental é acompanhar sem sufocar.
Outro ponto destacado é o isolamento: ter muitos contatos digitais não equivale a relações significativas. Velano e Bernardi alertam que a solidão produtiva — a ausência de vínculos profundos e projetos pessoais — é um sinal de risco na adolescência. A conversa também trata da dificuldade contemporânea em definir quando termina a adolescência e começa a vida adulta, colocando ênfase na construção de projetos e na participação social como indicadores de saúde psíquica.
O episódio integra a nona temporada do podcast, divulgado às sextas nas principais plataformas; a gravação foi feita no Zamunda Estúdio, com coordenação de Magê Flores e Daniel Castro e identidade visual de Catarina Pignato. A entrevista reforça a necessidade de ajustes na forma como a sociedade e as famílias acompanham jovens, tema que extrapola o debate pessoal e abre espaço para políticas e serviços de saúde mental mais atentos às singularidades dessa fase.