Um estudo publicado na revista Science sugere que polvos do último período da Era dos Dinossauros podiam atingir comprimentos surpreendentes, com estimativas máximas de até 19 metros. A conclusão se apoia na comparação entre bicos fossilizados — estruturas de quitina com boa preservação — e a relação conhecida entre tamanho do bico e comprimento corporal em cefalópodes.
A equipe liderada pelo paleontólogo Yasuhiro Iba combinou a análise de 15 mandíbulas já coletadas no Japão e no Canadá com a identificação digital de mais 12 bicos em rochas cretáceas por meio de tomografia e técnicas computacionais, processo descrito pelos autores como 'mineração digital de fósseis'. Atribuíram os exemplares a duas espécies do gênero Nanaimoteuthis, com faixas estimadas entre 7 m e 19 m para N. haggarti e entre 3 m e 9 m para N. jeletzkyi.
Os números empolgam, porque, na estimativa mais ampla, o N. haggarti ultrapassaria répteis marinhos célebres como o Mosasaurus, com cerca de 17 m. Mas especialistas consultados destacam que as margens de erro são grandes. Bruno Gonçalves Augusta, que pesquisou répteis aquáticos, recomenda prudência ao transformar inferências sobre bicos em medidas corporais definitivas; a bióloga Amanda Alves Gomes lembra que relações anatômicas podem variar e já levaram a superestimativas em outros grupos.
Se confirmada por achados adicionais, a hipótese muda a visão sobre a dinâmica dos ecossistemas marinhos do Cretáceo, ampliando a diversidade de grandes invertebrados predadores. Por ora, porém, a proposta funciona como hipótese provocadora: rica em possibilidades e dependente de novos fósseis e análises para reduzir incertezas e consolidar o quadro.