Em coluna na Folha, a jornalista portuguesa Mafalda Anjos retoma uma definição dura e pedagógica: o populismo age como uma “doença autoimune” das democracias, expressão do cientista político John Keane que ela cita para enquadrar o tema. Segundo a autora, o fenômeno não é uma doutrina coerente, mas uma fórmula pragmática de tomada e manutenção do poder que opera pela divisão entre uma elite apresentada como corrupta e um “povo” puro. Nesse jogo, a tática inclui simplificações, promessas fáceis, manipulação emotiva e uma persistente desconstrução das mediações e instituições que tornam possível a convivência política em sociedades complexas.

Anjos aponta Donald Trump como exemplo extremo dessa receita: além das técnicas clássicas do populismo, diz a colunista, Trump teria acrescentado uma mistura de narcisismo, agressividade pública e desprezo por normas que, em sua visão, transformaram práticas políticas em riscos institucionais. A autora sustenta que episódios recentes — e a capacidade de retorno eleitoral do populista — ajudam a entender por que regimes e alianças internacionais ficam mais frágeis, gerando repercussões geopolíticas e econômicas de difícil previsão. Essa leitura não é apresentada como mera retórica: é um alerta sobre custos reais para a estabilidade.

O texto amplia o quadro, listando figuras tão diversas quanto Getúlio Vargas, Juan Perón, Hugo Chávez, Evo Morales, Marine Le Pen, Viktor Orbán, André Ventura e Jair Bolsonaro: o que as une, escreve Anjos, não é ideologia, mas a estratégia de erosão das instituições e de exploração de ressentimentos. Na visão da colunista, ao desmontar pilares como imprensa livre, sistema judicial, academia e partidos, o populismo corrói o “chão comum” que sustenta democraticamente a sociedade. Recuperar esses núcleos leva anos e, por vezes, pode não ser plenamente possível, com efeitos duradouros sobre confiança pública e capacidade governativa.

Do ponto de vista político, a mensagem é direta e útil para leitores e decisores: a presença ou reemergência de populistas no comando impõe custos — eleitorais, institucionais e internacionais — que demandam resposta institucional e cidadã. A crítica de Anjos serve como diagnóstico e advertência: democracias robustas exigem mecanismos de defesa práticos e inteligentes, não apenas retórica. Para além da condenação moral do populismo, o desafio que fica para governos, oposição e sociedade civil é estrutural: reforçar contrapesos, preservar canais de informação e debate e recuperar a confiança que permite soluções públicas efetivas, sem atalhos que terminem por minar a própria democracia.