A inauguração do primeiro posto de saúde na comunidade do Ubim, na reserva extrativista do rio Gregório (Eirunepé), representa uma mudança concreta na vida de 242 famílias que até então precisavam viajar de barco entre três e seis dias para qualquer atendimento médico. A ausência histórica de uma unidade local já contribuiu para casos graves — incluindo mortes e amputações — e fez da autogestão improvisada a regra para ferimentos, picadas de cobra e fraturas.

O ponto de apoio integra o projeto SUS na Floresta e foi viabilizado por uma articulação público-privada: Fundação Amazônia Sustentável (FAS), BNDES, Fundo Vale sob gestão do Idis, prefeitura de Eirunepé e parceiros locais. A obra em Ubim é parte de um esforço maior: outras cinco unidades estão em construção e devem beneficiar mais de 6.000 pessoas em reservas de Carauari, Itapiranga, Novo Aripuanã e Uarini.

O modelo de atendimento combina presença periódica de equipes — médicos, enfermeiros e dentistas que ficarão cerca de 15 dias a cada dois meses — com telemedicina apoiada pela chegada da internet via Starlink. Entre as ações previstas estão estoque de medicamentos, inclusión de soro antiofídico e suporte para gestantes, crianças e portadores de doenças crônicas. A reportagem acompanhou atendimentos de casos cotidianos, como o de Francisco, 11 anos, ferido num facão, e de Raí, 11, que teve o braço imobilizado em casa até consolidar a fratura.

A iniciativa corrige uma falha estrutural antiga e amplia a equidade no acesso à saúde na região. Ao mesmo tempo, deixa pontos que precisam de atenção: a frequência bimestral das equipes e a dependência de internet via satélite e de cadeias logísticas complexas expõem riscos em períodos de seca ou em crises de financiamento. Se for bem mantido, o modelo pode reduzir mortes evitáveis e deslocamentos intermináveis; o desafio será transformar essa vitória inicial em serviço estável e contínuo para a população ribeirinha.