No Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores do Campo, operações recentes no sul e no centro‑oeste de Minas Gerais resultaram no resgate de 59 trabalhadores em lavouras de café, em um retrato que desmonta a narrativa de modernização plena do campo. Para a auditora‑fiscal Alessandra Bambirra, representante do Sinait em Minas, a mecanização convive com uma fragilidade estrutural: trabalhadores rurais têm menor acesso à educação, informação e serviços, o que os torna mais vulneráveis diante de práticas laborais degradantes.

As situações identificadas pela fiscalização incluem jornadas exaustivas, condições precárias de alojamento e formas contemporâneas de servidão por dívida — práticas que, segundo Bambirra, mantêm o trabalho escravo ativo no meio rural. A informalidade é fator central: sem vínculos formais, muitos ficam excluídos da previdência e de direitos básicos. Grande parte dos resgatados vem de regiões vulneráveis de Minas e do Nordeste, frequentemente aliciados por intermediários conhecidos como “gatos”.

Minas Gerais é apontado como pioneiro no combate ao trabalho escravo, mas a própria fiscalização reconhece limitações: falta de estrutura e pessoal compromete a capacidade de ação. A auditoria-fiscal e representantes do setor defendem que o cumprimento da legislação, isoladamente, encontra barreiras práticas — daí a ênfase em responsabilizar cadeias produtivas e avançar em certificações que considerem não só o produto, mas todo o processo produtivo.

A persistência dessas práticas tem efeitos claros: além do custo humano, há riscos econômicos e reputacionais para empresas e para a cadeia de alimentos. Do ponto de vista público, o caso expõe a necessidade de políticas integradas — reforço da fiscalização, investimentos em educação e infraestrutura rural, mecanismos de responsabilização das cadeias produtivas e incentivos à certificação de processos. Sem medidas concretas, a fragilidade do elo mais frágil da cadeia continuará a comprometer direitos e a sustentabilidade do setor.