A Prefeitura de São Paulo decidiu romper o contrato com a concessionária Viva o Vale, passo que atende a críticas antigas sobre a ocupação do vale do Anhangabaú. Nos anos recentes o local acumulou eventos privados frequentes, grades e áreas fechadas, quiosques sem uso, chafarizes desligados e circulação irregular de veículos — e, segundo relatos, até um estacionamento irregular operado pela concessionária foi o estopim para a interrupção do contrato.

O episódio reabre uma questão técnica e política: o modelo de concessão aplicado ao Anhangabaú tende a gerar ângulos de conflito entre o interesse público e a necessidade privada de gerar receitas. Diferente de uma rodovia pedagiada, um espaço urbano gratuito exige criatividade para monetizar atividades, o que acaba favorecendo contratos de grandes eventos, fechamentos temporários e ações de ‘ativação’ que limitam o uso coletivo.

O economista e urbanista que criticou o arranjo propõe que a Prefeitura reassuma a manutenção do vale e terceirize apenas a operação cultural de pequena escala — cursos, oficinas e atividades gratuitas — preservando patrocínios pontuais, mas evitando megaeventos que transformam o lugar em área privada. Também aponta para falhas da reforma de 2021, de mais de R$ 100 milhões: um desenho que, embora modernizado, deixou o espaço amplo, quente e com poucas árvores. Soluções práticas incluem reforço da arborização, reabertura de quiosques para o comércio local e melhoria das conexões com ruas e equipamentos culturais vizinhos.

A decisão de romper o contrato é uma oportunidade, mas impõe à gestão municipal um desafio administrativo e político: gerir diretamente o espaço exige dinheiro, capacidade operacional e vínculo com a comunidade para garantir limpeza, segurança e programação permanente. A medida correta vai além de punir a concessionária: passa por remodelar o projeto urbano para aumentar permanência e encontros, recuperando o caráter público do vale sem transferir custos sociais e patrimoniais a terceiros.