Quase metade dos brasileiros (45%) disse ter buscado alguma forma de renda alternativa nos últimos meses, enquanto 59% avaliou que a renda familiar é insuficiente para cobrir as despesas. É o retrato de um país em que o aperto no orçamento se espalha por segmentos distintos da população, segundo pesquisa Datafolha com 2.002 entrevistados feita nos dias 8 e 9 de abril, com margem de erro de dois pontos percentuais.

O impacto é mais severo entre quem ganha até dois salários mínimos, onde cerca de 7 em cada 10 identificam a renda como insuficiente. Quatro em cada 10 relataram redução recente da renda familiar, com queda mais concentrada entre os 35 e 44 anos. Dois terços afirmam ter algum tipo de dívida, reforçando o quadro de superendividamento que reduz a capacidade de consumo das famílias.

Especialistas consultados na pesquisa atribuem o movimento a três vetores: mercado de trabalho, preços e condições de crédito — com custos de financiamento elevados que pressionam famílias e empresas. A busca por complementação aparece com frequência também entre quem tem mais escolaridade, reflexo tanto da necessidade quanto da maior participação desses grupos no mercado formal e em ocupações que permitem bicos e trabalhos temporários.

Do ponto de vista político e econômico, os números acendem alerta para gestores: rendimento médio historicamente baixo, alta da inadimplência e queda de renda corroem receitas tributárias atreladas ao consumo e ampliam a necessidade de políticas que favoreçam emprego de qualidade, controle da inflação e maior eficiência no custo do crédito. O quadro pressiona a narrativa oficial sobre recuperação e pode se traduzir em custo político se medidas concretas para elevar renda real e reduzir o endividamento não avançarem.