Quase um terço da população brasileira declarou não ter nenhuma reserva financeira ao fim do ano passado, segundo a 9ª edição do Raio‑X do Investidor, pesquisa feita pela Anbima em parceria com o Datafolha. Do total entrevistado (5.832 pessoas), 31% disseram não guardar nada; outros 32% afirmaram ter um colchão inferior ao mínimo recomendado por especialistas, considerado suficiente para cobrir, na prática, apenas alguns meses de despesas.
O levantamento evidencia desigualdade na capacidade de poupança: quase metade das famílias das classes D/E não tem reserva, índice que cai para 30% na classe C e fica em 13% entre A e B. Há também diferença por geração: a Geração X concentra a maior parcela sem poupança (37%), seguida pelos millennials (28%), enquanto geração Z e boomers registram os menores percentuais (17% cada). Esses recortes mostram que a vulnerabilidade não é homogênea e tende a incidir sobre os já mais fragilizados.
No leque de produtos, a caderneta de poupança segue dominante: 22% mantêm recursos nela e 20% planejam continuar. Outros instrumentos têm presença reduzida: títulos privados e fundos aparecem com participação modesta, e ações, títulos públicos e previdência privada aparecem em patamares muito baixos. Ainda assim, Anbima e Datafolha estimam cerca de 60,6 milhões de investidores no país (cerca de 36% da população), com projeção de 8,7 milhões de novos investidores no ano.
A leitura jornalística dos dados aponta para consequências práticas: famílias sem colchão estão mais expostas a choques — desemprego, emergências de saúde ou despesas inesperadas — o que pode pressionar tanto a estabilidade social quanto o orçamento público em momentos de crise. A persistente preferência pela poupança e a baixa adesão a produtos financeiros de maior rendimento também sinalizam perda de oportunidade de formação de poupança produtiva. Para reduzir essa fragilidade será preciso combinar educação financeira, maior oferta de produtos acessíveis e políticas que facilitem a transição do simples hábito de economizar para a construção de reservas reais, sem esquecer a ênfase em responsabilidade fiscal e eficiência no desenho de eventuais medidas públicas.