No Acampamento Terra Livre, em Brasília, artesãos indígenas alertaram para a redução visível de aves nos territórios e para o efeito direto disso na confecção de cocares. Tapurumã Pataxó, de 32 anos, disse que a sinalização é clara: menos maritacas, araras e papagaios nas proximidades das aldeias torna mais difícil obter as penas naturais usadas nas peças tradicionais.
Lideranças relacionam a mudança a desmatamento, queimadas e ao uso de agrotóxicos em áreas invadidas por grileiros e não‑indígenas. Segundo relatos, a técnica de produzir cocares com penas que caem dos próprios animais foi prejudicada; em alguns casos, artesãos passaram a buscar materiais em zoológicos ou a trocar penas em encontros como o Acampamento Terra Livre, prática que expõe a perda de biodiversidade local.
O cocar, explicam os artesãos, vai além de ornamento: é símbolo de identidade, proteção e aliança — em cerimônias tradicionais, tem valor equivalente a uma aliança. Por isso há apelos para que não indígenas tratem o objeto como fantasia: a recomendação é adquirir com respeito, preservar em moldura e reconhecer seu significado cultural, em vez de usá‑lo como adereço.
Além do impacto cultural, a escassez de aves tem consequência econômica e política para as comunidades: prejudica renda artesanal, dificulta transmissão de saberes e amplia a pressão por demarcação e proteção dos territórios. Os relatos apresentados em Brasília reforçam a necessidade de medidas concretas de fiscalização, ações de recuperação ambiental e programas de reinserção de fauna se o objetivo for preservar tanto espécies quanto práticas culturais tradicionais.