Um estudo publicado na revista Science Advances pelo grupo de Janelle Ayres, do Instituto Salk, descreve o que os autores consideram a primeira transição de liderança sem violência documentada entre ratos-toupeiras-pelados. Em uma colônia de cativeiro batizada Amigos, a matriarca Teré abriu mão da reprodução e passou a proteger a nora gestante em vez de disputar o controle do ninho.
A colônia foi fundada em 17 de julho de 2019 por Teré e um macho chamado Paquíto, com uma primeira ninhada que sobreviveu parcialmente. A reprodução da rainha foi consistente até que a população alcançou 39 indivíduos, em 5 de agosto de 2020, quando os recém-nascidos deixaram de sobreviver. Experimentos de manejo mostraram que superlotação afetou a fertilidade: retirar metade dos animais restaurou o sucesso reprodutivo temporariamente.
A mudança de alojamento desencadeou gestações em duas filhas de Teré, Alexandria e Arwen. Alexandria teve complicações uterinas e precisou ser sacrificada; Arwen trouxe a gravidez adiante. Em vez de reagir com violência, a mãe aceitou e protegeu a nova reprodutora, interrompendo sua própria gestação. Os pesquisadores não registraram confrontos diretos dentro da colônia.
O relato afasta a ideia de que a única forma de transferência de reprodução entre esses roedores seja dispersão ou tomada agressiva. Ainda assim, o achado vem de um único experimento em cativeiro, com condições artificiais e número limitado de colônias; a generalização para populações selvagens exige cautela. Mesmo assim, a observação amplia perguntas sobre mecanismos sociais e ambientais que regulam reprodução em sociedades cooperativas e faz repensar pressupostos sobre «ordem» e conflito entre animais altamente especializados.