A recente mudança nas urnas húngaras confirma algo elementar: sistemas eleitorais e estratégias políticas podem permitir alternância mesmo após anos de aperto autoritário. O que o processo também deixa claro, porém, é o peso de um arcabouço institucional pensado para perpetuar maiorias. A lei eleitoral aprovada em 2012 e as reformas sucessivas deram ao partido no poder vantagem estrutural —capaz de transformar porcentagens modestamente maiores de votos em maiorias amplas no parlamento— e, por isso, a derrota eleitoral não significa automaticamente a restauração imediata de equilíbrios democráticos.

A reação da oposição foi crucial: a retirada concertada de candidaturas por forças progressistas, socialistas e verdes, inclusive do partido que governa Budapeste, permitiu concentrar votos contra o incumbente e viabilizar uma mudança de regime. Essa tática de unidade explica por que sistemas aparentemente projetados para garantir hegemonia podem, em momentos específicos, favorecer a alternância. Mas a política das urnas enfrenta limites quando o aparelho do Estado permanece alinhado ao antigo projeto de poder.

As dificuldades concretas são documentadas e não podem ser ignoradas: um Conselho Orçamental de três membros nomeados pelo Executivo com poder de veto, um presidente com mandatos até 2029 capaz de dissolver o parlamento em certas circunstâncias, e um Tribunal Constitucional fortemente cooptado —dos 15 juízes, 11 são identificados com a maioria governista, com mandatos de 12 anos— além de uma sucessão de órgãos-chave da Justiça e da regulação da mídia alinhados ao Executivo. Esse enquadramento institucional funciona como uma segunda linha de defesa que reduz a margem de manobra de qualquer governo de alternância.

A vantagem, que não é pequena, é que essas derivas foram mapeadas: relatórios e investigações produzidos desde 2013 servem hoje como um roteiro das intervenções no aparelho de Estado. Reconstruir a democracia exigirará, portanto, não apenas vontade política e apoio popular, mas passos concretos e coordenados —revisão da lei eleitoral, recomposição de órgãos independentes, garantia de pluralidade na mídia e reformas judiciais com transparência— sempre respeitando processos legais para evitar novos pretextos de contestação. A lição húngara é dupla: alternância é possível; recuperar instituições demanda estratégia e urgência.