Um estudo sul-coreano, destacado em artigo do oncologista Drauzio Varella, reabre debate clássico da medicina: até que ponto é possível prever quanto tempo resta a um doente? A pesquisa avaliou o reflexo corneano em 112 pacientes —majoritariamente com câncer avançado— e encontrou que a ausência desse reflexo elevou em 5,5 vezes o risco de óbito nas 24 horas seguintes, com mortalidade de 70,7% nesse grupo.

O método foi simples: enfermeiras testaram o reflexo três vezes ao dia com um cotonete. Dos 112 participantes, 110 faleceram no decorrer de uma semana. Os autores classificaram as respostas em intacta, diminuída ou ausente. A originalidade do trabalho está em aplicar um critério usado há décadas para constatar óbito também em pacientes ainda vivos, buscando um sinal objetivo de proximidade da morte.

O achado tem utilidade prática para equipes de cuidados paliativos e para familiares, que frequentemente pressionam por estimativas de tempo de vida. Ainda assim, os dados exigem prudência: preservação do reflexo não exclui morte súbita e a variabilidade individual permanece alta —o que explica a relutância histórica dos médicos em cravar prognósticos, defendida por gerações de clínicos.

Há também implicações institucionais. Protocolos simples e treinamento para reconhecimento de sinais finais podem melhorar comunicação, direcionar recursos e evitar intervenções fúteis. Ao mesmo tempo, é papel do sistema de saúde garantir que essa objetividade científica não substitua atendimento humano nem gere falsas certezas —uma questão de eficiência clínica e responsabilidade pública.