As críticas de Flávio Bolsonaro à reforma tributária do governo Lula ganharam foco público, mas esbarram em contradições difíceis de sustentar politicamente. O senador acusou o novo sistema de criar uma carga sobre o consumo que “ninguém consegue pagar”. O problema para a oposição é que parte substancial do desenho em discussão — a substituição do PIS/Cofins por uma Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) — já constava de um projeto apresentado pelo governo Jair Bolsonaro em 2020.
No plano técnico há diferenças relevantes: a proposta de 2020 previa uma alíquota da CBS de 12%, enquanto estimativas do Ministério da Fazenda de 2023 calculavam a alíquota prevista para 2027 em torno de 9%. Hoje o PIS/Cofins, no regime não cumulativo, está em 9,25%. Além disso, a emenda constitucional que viabiliza a reforma assegura a manutenção da carga sobre o consumo — isto é, o “peso insuportável” apontado pelo opositor equivale ao que já vinha sendo cobrado historicamente.
Há também recortes políticos que complicam a narrativa oposicionista. No governo Bolsonaro a participação da tributação sobre bens e serviços na economia foi, em média, de 13,6% do PIB; na gestão atual caiu para cerca de 10% (período 2023-2025). Medidas previstas para 2027, como a eliminação do IPI para a maioria dos produtos industrializados, também foram tentadas no governo anterior. Criticar a reforma sem explicar essas continuidades torna a oposição vulnerável à acusação de incoerência.
O próprio discurso de Flávio traz contradições pontuais: ele atacou o chamado Imposto de Renda Mínimo, aprovado em votação simbólica com apoio de seu blocos no Congresso, e apoiou dispositivo que aumentou a faixa de isenção do IR para quem ganha até R$ 5.000 — mudança que gerou críticas e especulações nas redes. Ao dizer que a reforma precisará ser “revisitada pensando em redução de carga”, o pré-candidato precisa dizer como compensaria essa redução: cortes concretos de despesa, aumento de outros tributos ou ampliação de privilégios setoriais?
A análise técnica dá à pergunta uma resposta clara: acomodar mais setores com benefícios eleva a alíquota geral. Se se concede isenções amplas — por exemplo, em passagens aéreas internacionais — o imposto direto sobre outros bens e serviços terá de subir para compensar. Há também risco de medidas compensatórias com impacto fiscal, como alterações em reajustes de benefícios previdenciários, tema já mencionado em reportagens. Politicamente, a oposição terá de enfrentar esse nó: desacreditar a reforma sem apresentar alternativa crível é abrir espaço para o governo explorar ocupando o centro do debate fiscal.