Documentos consultados pela Folha e registros da Anac e do terminal executivo do Aeroporto de Brasília mostram que o uso de jatos privados por autoridades foi disseminado em 2025. Ao menos 38 deputados, 20 senadores, quatro ministros do Executivo e quatro integrantes do STF constam nas listas de passageiros que embarcaram no terminal, em aeronaves pertencentes a empresários, empresas de táxi aéreo e, em alguns casos, aos próprios parlamentares.
Os relatos trazem exemplos que ilustram a prática: o então deputado Hugo Motta embarcou em 14 de janeiro no jatinho do empresário Marcelo Perboni para participar do enterro do pai do deputado Arthur Lira; a assessoria do empresário afirmou que o transporte foi oferecido em caráter pessoal e solidário. Motta assumiu a presidência da Câmara em fevereiro de 2025 e passou a ter direito a voos da Força Aérea Brasileira, o que acrescenta camada institucional ao episódio.
O senador Otto Alencar (PSD-BA) aparece em registros de voos da empresa Prime You em 13 de março, 9 de abril e 12 de junho de 2025; ele afirmou que foi convidado a viajar por um advogado que pagou os trajetos. Documentos públicos também vinculam movimentações do Banco Master a empresas ligadas ao filho do senador, que recebeu R$ 12 milhões entre 2022 e 2025, segundo informes. Outro caso citado envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que viajou oito vezes em avião ligado a um dos donos da JBS Terminais.
No Judiciário, os registros incluem ministros do STF: Alexandre de Moraes e a esposa Viviane Barci aparecem em listas de embarque, e o escritório da mulher recebeu R$ 80 milhões do Banco Master, conforme documentos enviados à CPI do Senado. Dias Toffoli foi registrado no terminal em 4 de julho, com decolagem de aeronave da Prime Aviation para Marília pouco depois; Toffoli, que foi relator inicial de inquérito relacionado ao Master, se afastou do caso após indícios de pagamentos a empresa vinculada ao ministro. A divulgação das listas amplia questionamentos sobre conflitos de interesse, transparencia e o custo político para autoridades e instituições, e tende a aumentar a pressão por explicações públicas e por regras mais claras para deslocamentos de agentes públicos.