A decisão do governo Trump de retirar os Estados Unidos do processo de apoio ao IPCC —o principal painel científico da ONU sobre mudanças climáticas— voltou a ter efeitos palpáveis durante uma reunião em Bangcoc no fim do mês passado. Pesquisadores discutiram não apenas o conteúdo técnico dos próximos relatórios, mas também um déficit orçamentário mais agudo sem a participação direta de Washington.

Os EUA sempre foram um dos principais pilares científicos do IPCC: na avaliação anterior 74 pesquisadores americanos participaram, o maior contingente entre os países —o dobro da representação da China naquele ciclo. Com o corte de verbas e o fechamento de programas federais, parte do financiamento para cientistas americanos passou a ser coberto por organizações como a American Geophysical Union, que assumiu custos para manter mais de 70 pesquisadores envolvidos.

O vácuo deixado por Washington cria duas consequências imediatas. A primeira é operacional: projetos de dados críticos, como o banco EM-DAT —antes parcialmente sustentado pela USAID— tiveram de reavaliar estrutura e fontes, o que gera risco concreto à continuidade de bases públicas essenciais para entender eventos extremos. A segunda é geopolítica: a União Europeia anunciou investimentos via Horizonte Europa e a China acelera desembolsos em ciência, abrindo espaço para realinhamentos na liderança da pesquisa climática.

Para o IPCC, a saída dos EUA traduz-se em pressão por novas fontes de financiamento e em maior custo político para manter autoridade técnica. A troca de protagonismo científico tem implicações práticas e simbólicas: mais recursos europeus e chineses podem suprir parte da lacuna, mas não substituem automaticamente a infraestrutura de dados e a influência que acompanham o aporte americano.