O esforço físico contínuo exigido pela vida na floresta deixou sequelas visíveis nas comunidades ribeirinhas do sudoeste do Amazonas. Estudos da Universidade Federal do Amazonas apontam prevalência de dores musculares que pode atingir 73% entre moradores, com a coluna respondendo por 38% das queixas. O padrão revela falha estrutural na oferta de prevenção e reabilitação para populações que vivem do trabalho na roça e da pesca.
Em expedição à comunidade do Ubim, na reserva extrativista do rio Gregório, a rotina é de trabalho sob o sol: colheita de açaí, transporte de sacas de farinha e retirada de madeira, quase sempre sem equipamentos de proteção. Moradores relatam limitações funcionais acumuladas ao longo de décadas de esforço repetitivo. Casos de bursite, dores articulares e perda de mobilidade comprometem a capacidade de trabalho e a autonomia no dia a dia.
Profissionais de saúde que atuam em Eirunepé e nas comunidades confirmam a elevada demanda por alívio da dor. Agentes comunitários apontam que até 80% dos atendidos em algumas localidades reclamam de problemas na coluna. A enfermeira da atenção primária relata que homens e mulheres chegam com dores crônicas e lesões que poderiam ser melhor manejadas com avaliação e fisioterapia regular, hoje praticamente indisponíveis na prática local.
Na carência de serviços de reabilitação, o tratamento costuma se resumir a analgésicos e anti-inflamatórios, além de aplicações pontuais de medicamentos injetáveis. Profissionais de farmácia observam pacientes já pedindo remédios específicos ao chegar ao serviço, o que evidencia desconhecimento de alternativas não farmacológicas e falta de acompanhamento continuado. Automedicação e soluções caseiras são comuns.
A gestão municipal anunciou oferta de fisioterapia por teleatendimento em dias pontuais da semana, uma medida inicial, mas insuficiente diante da extensão do problema. A situação acende alerta sobre a fragilidade das políticas públicas de saúde para populações ribeirinhas: insuficiência de prevenção ocupacional, risco de cronificação das lesões, pressão sobre a atenção primária e impacto direto na renda e na qualidade de vida. Ampliar reabilitação, integrar orientação preventiva e fortalecer atendimento local aparecem como passos necessários para reduzir o peso do trabalho sobre os corpos na floresta.