A coluna de Elio Gaspari, retomada aqui, reforça um diagnóstico inconveniente para a narrativa oficial: uma década após os Jogos de 2016, o Rio de Janeiro ainda não converteu a maior operação urbana do século em um legado de uso contínuo e valor econômico comparável aos exemplos consagrados. A defesa do prefeito Eduardo Cavaliere, de que poucas cidades preservaram e mantiveram uso permanente das instalações olímpicas, não encontra respaldo quando se coteja o caso carioca com experiências bem-sucedidas e com outras malogradas.

Gaspari aponta com razão a existência de modelos distintos. Londres transformou parte da vila olímpica em um polo de requalificação — com centro comercial consolidado, hotéis e dezenas de estabelecimentos — e devolveu à cidade uma área produtiva; Barcelona redirecionou sua face urbana para o mar após 1992; e Tóquio associou sua mostra olímpica a obras de infraestrutura de longo prazo. Em contrapartida, Atenas (2004) e o Rio (2016) aparecem como exemplos de dificuldades em manter uso permanente e geração sustentada de benefícios. Essa comparação não é mera retórica: revela que resultados dependem menos do brilho do evento e mais da estratégia de pós-uso e da disciplina fiscal e administrativa que venha a seguir.

As consequências desse déficit são concretas e múltiplas. Na esfera econômica, perde-se potencial de atração de investimentos, geração de empregos locais e aumento de receitas por turismo e comércio; em termos de gestão pública, permanece a pergunta sobre responsabilidade técnica e política por projetos que custaram aos cofres e falharam em se consolidar como ativos geradores de retorno. Politicamente, o quadro amplia desgaste sobre antigos e atuais gestores, que veem a narrativa do 'legado' esfarelar-se diante da evidência de espaços ociosos e obras subutilizadas. Para a sociedade, o custo é tangível: investimentos que deveriam se traduzir em melhorias urbanas e serviços duráveis acabam convertidos em símbolos de oportunidade perdida.

É sintomático que a própria coluna também ironize decisões de nível federal apresentadas como soluções administrativas — entre elas, medidas sobre recolhimento e controle de apostas que parecem mais cosmética do que política pública efetiva. O diagnóstico que sobra é de baixa ambição e fraca execução: se a Olimpíada deveria ser alavanca de transformação, o Rio mostra que sem um projeto pós-evento coerente, com planos de uso, financiamento e governança claros, o legado vira pretexto. A lição é política e administrativa: a cidade precisa traduzir críticas em planos exequíveis e prestar contas sobre o que foi planejado, realizado e por que parte do potencial não vingou.