Ruy Castro, cronista e biógrafo conhecido pelas obras sobre Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues e membro da Academia Brasileira de Letras, traz à tona uma memória que mistura política, costume e linguagem. Em 1983, durante uma entrevista no Guarujá com Jânio Quadros — passagem registrada pelo autor — o ex-presidente tomou whisky enquanto Ruy Castro moderava o consumo. Após almoço com a família, numa conversa longa e descontraída, Jânio exibiu domínio impecável das formas tradicionais do português: usava ênclises, próclises e mesóclises sem qualquer hesitação.
A anedota central ilustra o tom: ao ser questionado sobre a célebre frase atribuída à sua renúncia — “Fi-lo porque qui-lo” — Jânio negou a expressão e corrigiu: “fi-lo porque o quis”. O episódio terminou com o então diretor Boris Casoy sendo lembrado por uma queixa de Jânio, depois que o cronista zombou dos arcaísmos. Hoje, escreve Ruy Castro, o gesto seria outro: aprendeu a respeitar as palavras antes de ridicularizá-las.
Da defesa de formas que parecem fossilizadas nasce um argumento cultural. Ruy invoca Eça e Machado como modelos de uso e cita Ezra Pound, que via na guarda da língua um instrumento de identidade e reinvenção — “make it new”, segundo a referência citada, significaria reapresentar o velho com força renovada. Caetano Veloso surge como exemplo contemporâneo de quem aprecia essas construções. Ao mesmo tempo, o cronista reconhece que a língua evolui e que modernização e desleixo não são a mesma coisa.
O quadro merece leitura crítica: preservar formas clássicas é cuidar de um acervo estilístico que enriquece a prosa e o discurso público; contudo, a defesa não pode se transformar em resistência acrítica às mudanças necessárias para a comunicação cotidiana e educacional. Entre guardiões e modernizadores há espaço para bom senso: políticas de ensino e práticas editoriais que valorizem a história da língua sem atrapalhar a clareza e a eficiência da comunicação pública.