Ruy Castro, jornalista e escritor conhecido por biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues e membro da Academia Brasileira de Letras, assina uma coluna em que reavalia a memória do cinema francês dos anos 1950. Em debate com jovens cinéfilos, o autor rebate a versão simplificada segundo a qual o país estaria praticamente morto antes da chegada da Nouvelle Vague.

A crítica à chamada 'le cinéma du papa' começou com um texto programático de François Truffaut no Cahiers du Cinema, em 1954, que denunciou um cinema de estúdio, preso a clássicos literários e grandes produções históricas. Não há dúvida de que a Nouvelle Vague trouxe inovações estéticas e um cinema de rua, barato e ágil que reconfigurou linguagens — mas ela não surgiu num deserto cultural.

Castro lembra títulos imprescindíveis dos anos 1950 que desmontam o mito do vazio: Conflitos de Prazer e Lola Montès (Max Ophuls), Amores de Apache e Grisbi, Ouro Maldito (Jacques Becker), Jogos Proibidos (René Clément), As Férias do Sr. Hulot e Meu Tio (Jacques Tati), O Salário do Medo e As Diabólicas (H.G. Clouzot), Rififi (Jules Dassin), Bob le Flambeur (Jean‑Pierre Melville) e E Deus Criou a Mulher (Roger Vadim).

Além desses nomes, havia uma vasta produção comercial, com astros que ocupavam os álbuns de figurinhas: Michèle Morgan, Gérard Philipe, Jean Gabin, Yves Montand, Simone Signoret, Françoise Arnoul, Danielle Darrieux, Jeanne Moreau e, já em ascensão, Alain Delon e Brigitte Bardot. Muitos desses filmes ficaram disponíveis em VHS e DVD, mas a migração para a 'nuvem' privilegiou o circuito das obras de arte, e parte dessa produção popular acabou sumindo do catálogo digital. Ironia final: Truffaut, que tanto criticou o cinema dos anos 50, admitiu depois que, em segredo, gostava desses filmes.