Ruy Castro, jornalista, biógrafo de nomes como Carmen Miranda e membro da Academia Brasileira de Letras, dedica uma crônica curta e bem-humorada a um fenômeno típico das conversas eletrônicas: o 'kkkkkk'. Para o autor, o repertório do riso escrito é bem mais amplo do que a repetição da consoante k. Em vez de censurar, ele descreve variações — do ataque sonoro do rá-rá-rá ao riso irônico do rê-rê-rê — e sugere que cada forma traz uma nuance própria.

Ao colocar o 'kkkkkk' no centro da discussão, a coluna chama atenção para uma característica simples e concreta: esse tipo de risada existe essencialmente no texto digital e costuma aparecer ao final da mensagem, como se quem escreve decidisse antecipar a reação do leitor. Castro lembra que essa prática empobrece a riqueza expressiva do riso que, na oralidade, assume timbres muito diferentes e informativos.

A observação adquire contorno internacional quando o cronista aponta um problema prático: fora do Brasil, e especialmente em Portugal, a letra k não tem o mesmo status sonoro. Em inglês, por exemplo, a sequência tende a ser lida como 'keikei'; em Terras lusas, a letra pode soear como 'kappa'. Resultado: o gesto comunicativo perde sentido ou vira ruído. É um lembrete de que a proliferação de convenções digitais não garante universalidade nem evita mal-entendidos culturais.

Mais do que uma crítica a costumes online, a coluna funciona como alerta sobre a transformação da língua pela internet: abre caminho para novas grafias e abreviaturas, mas também para perda de nuances e de controle na comunicação transfronteiriça. Castro evita a moralização explícita — trata o tema como curiosidade linguística —, mas o recado é claro: rir por escrito é uma prática em evolução, e nem sempre o interlocutor estrangeiro rirá junto.