Treze anos depois da primeira versão nacional, Shrek retorna aos palcos paulistas com uma aposta clara: usar o deboche como verniz para dialogar com o público brasileiro. Sob direção de Gustavo Barchilon, a peça amplia o universo original com referências locais — da boneca Emília à Cuca e à Caipora — e transforma o espetáculo em pastiche de ícones nacionais.
O desenho de produção rejeita realismo e privilegia cores e artificio, em linha com a origem paródica da história criada pela DreamWorks como reação ao cânone dos estúdios tradicionais. No palco, cenas que lembram Os Saltimbancos e trechos de músicas conhecidas viram piadas para adultos, enquanto o roteiro mantém camadas que funcionam também para crianças.
A escalação traz leituras de palco que mexem com expectativas: Evelyn Castro assume o papel do Burro e aponta para uma inversão de gênero que amplia o debate sobre representação e humor; Tiago Abravanel, no papel-título, aproveita o texto para subverter julgamentos sobre aparência e origem familiar sem sair do tom cômico. A montagem evita literalidade e prioriza o deboche como ferramenta narrativa.
Além do teatro, Shrek segue forte na cultura pop nacional: memória de dublagens marcantes, presença em festas e redes sociais e referências a tendências como o acessório Juliet no teaser do quinto filme previsto para 2027. O resultado é um espetáculo que busca ao mesmo tempo entreter famílias e falar diretamente à cultura brasileira por meio do riso e da sátira.