Em 2019, Mark Mongiardo foi parado após um jantar e surpreendido por um teste do bafômetro marcando 0,18% — mais que o dobro do limite legal — apesar de afirmar não ter ingerido álcool. Não era um único episódio: reclamações sobre cheiro de bebida e episódios de confusão surgiam desde o início da carreira, e prisões por dirigir embriagado abalaram sua vida pessoal e profissional.
A explicação médica veio apenas após encaminhamento a um gastroenterologista especializado. Em exame controlado, consumindo apenas uma bebida açucarada, o sangue de Mongiardo registrou aumento progressivo de etanol até cerca de 0,14% ao longo de horas. O diagnóstico: síndrome da autofermentação — quando microrganismos intestinais fermentam carboidratos em etanol em quantidade superior à capacidade de metabolização do fígado.
A condição é descrita em publicações médicas desde meados do século XX e aparece em relatos nos EUA desde os anos 1980. Embora considerada rara, o tema chamou atenção em um congresso recente de gastroenterologia, com cinco trabalhos dedicados ao fenômeno, e estudos que examinaram dezenas de pacientes sugerem que a síndrome pode estar subdiagnosticada.
Além do impacto clínico, há efeitos práticos: resultados positivos em bafômetros e exames podem levar a acusações criminais, perda de emprego e desgaste reputacional antes mesmo de averiguações médicas aprofundadas. Médicos, peritos e tribunais enfrentam o desafio de diferenciar consumo exógeno de álcool de produção endógena, o que exige protocolos de investigação mais sistemáticos.
Especialistas pedem mais pesquisa e maior conscientização para evitar condenações e estigmatização de pacientes com explicações médicas plausíveis. O diagnóstico exige investigação laboratorial cuidadosa e acompanhamento multidisciplinar — e coloca em destaque a necessidade de atualizar rotinas forenses diante de evidências que fogem ao senso comum.