Hélio Schwartsman, jornalista e ex-editor de Opinião — autor também de "Pensando Bem…" — assina uma resenha densa sobre Sob a Sombra da Suástica, livro de Franciele Becher que busca reconstruir o diário coletivo dos franceses durante a ocupação alemã. A peça parte de uma pergunta simples e incômoda: em condições extremas, como a maioria reagiria — resistindo, colaborando ou apenas lutando para sobreviver? Schwartsman lembra que a resposta individual costuma ser menos heroica do que a memória gostaria de crer.

Becher organiza o relato desde as raízes do desastre: a política de apaziguamento que facilitou a ascensão de Hitler, os equívocos do Alto Comando francês e a rápida catástrofe de 1940. A autora segue pelo êxodo das populações, o armistício e a instalação do regime de Vichy, até as deportações e a limpeza moral que se seguiu à libertação. O livro mapeia um leque amplo de comportamentos: da Milícia Francesa — cerca de 30 mil homens que perseguiram resistentes e judeus — aos funcionários que argumentavam apenas cumprir ordens, passando por colaborações afetivas que deixaram marcas duras na retaliação pós-guerra.

A obra ressalta que a maioria buscava, acima de tudo, sobreviver. Pequenos atos de desobediência conviviam com escolhas de acomodação. A resistência também teve formas variadas: além dos que operaram em condições altamente arriscadas, havia quem ajudasse esporadicamente — Schwartsman registra estimativas de cerca de 450 mil franceses envolvidos em operações contra os alemães no auge de 1944. Esse mosaico desafia narrativas simplistas de vilões e heróis e obriga a reconhecer a ambiguidade moral do cotidiano sob repressão.

Além do valor histórico e literário, a resenha de Schwartsman destaca um alerta institucional: o livro mostra como falhas estratégicas, capitulações políticas e normalização de medidas autoritárias pavimentam caminhos para a violência em escala. Mais do que reviver episódios do passado, a leitura impõe reflexão sobre os mecanismos que permitem que sociedades cedam diante de regimes opressores e sobre o custo humano das escolhas coletivas. Sob a Sombra da Suástica, conclui Schwartsman, não é apenas um relato do passado, mas um convite a lembrar como se constrói — e se pode evitar — a cumplicidade.