Documentos da Polícia Civil consultados pela reportagem mostram que, no início de 2022, um homem investigado por suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital obteve autorização para usar o heliponto do Palácio dos Bandeirantes com o objetivo de agilizar deslocamento até o estádio do Morumbi. A informação consta da representação que fundamentou a operação de combate à infiltração do PCC no setor público, que resultou em quatro prisões e 22 mandados de busca e apreensão.

Segundo a investigação, o pedido para uso do heliponto foi costurado pelo então ex-vereador de Santo André, um dos presos na operação, que teria solicitado interlocução com a Casa Militar — órgão subordinado ao gabinete do governador e responsável por tratar do tema. A Polícia Civil qualifica como “extremamente grave” a facilidade com que, segundo os papeis, se conseguiu a autorização, mas não confirma nos autos se a aeronave efetivamente pousou no local.

O suspeito alvo das apurações é fundador de uma fintech citada pelas investigações como peça-chave no suposto esquema de obtenção de contratos e lavagem de recursos. Ele chegou a ficar foragido e foi preso há cerca de dois meses no Tocantins. Conversas interceptadas indicam que os interlocutores demonstraram apreensão antes do deferimento e comemoraram a autorização quando ela saiu, o que, para investigadores, reforça a necessidade de apuração sobre eventuais fragilidades administrativas e possíveis favorecimentos.

A gestão à época, do então governador, disse que tratativas sobre o uso do heliponto são de competência da Casa Militar e preferiu não comentar. A atual administração afirmou que o episódio ocorreu antes de sua posse e que autorizações seguem critérios técnicos da Agência Nacional de Aviação Civil. O caso levanta, porém, questões concretas de procedimento e controle em um equipamento ligado ao governo estadual, e coloca pressão para que a apuração esclareça responsabilidades e feche lacunas que permitam acessos não fiscalizados.