A nomeação da coronel Glauce Anselmo Cavalli para o comando-geral da Polícia Militar de São Paulo marca um recuo explícito da influência do grupo ligado ao ex-secretário Guilherme Derrite. Considerada técnica, com formação em logística e finanças e sem histórico de alinhamento político, Glauce — uma das seis mulheres entre os coronéis da ativa — foi apontada por oficiais como o melhor nome entre os 63 coronéis aptos ao cargo.
A escolha tende a provocar mudanças na cúpula da corporação e a frear a política de confronto que vinha sendo incentivada na gestão anterior. O núcleo associado a Derrite foi criticado por priorizar ações de força e está ligado à elevação das mortes decorrentes de intervenção policial: entre outubro e dezembro do ano passado foram 276 óbitos provocados por policiais, o maior número trimestral da série histórica iniciada em 1996. Ao mesmo tempo, Estado registrou queda em homicídios e roubos, enquanto feminicídios cresceram.
A alteração na linha de comando já vinha sendo desenhada desde a chegada do coronel da reserva Henguel Ricardo Pereira à Secretaria como secretário-executivo, com exonerações e trocas em cargos-chave — entre eles coronéis apontados como próximos a Derrite. O agora número 2 da PM, coronel Mário Kitsuwa, psicólogo e ex-chefe do Caps, terá à frente a agenda de saúde mental e a missão de enfrentar altos índices de suicídio na tropa e melhorar preparo psicológico, um ponto apontado por oficiais como capaz de reduzir intervenções letais.
Do ponto de vista político, o nome agradou ao Palácio dos Bandeirantes: Tarcísio de Freitas havia manifestado a intenção de indicar uma mulher para a chefia das polícias. A movimentação sinaliza uma tentativa de depolitizar a corporação e recompor a imagem do governo após o desgaste provocado pelo aumento das mortes em operações. Resta agora ver se a mudança produzirá, além de alteração de nomes, ajuste de práticas, supervisão e resultados concretos — inclusive na eventual reformulação da Polícia Civil, cujos nomes já circulam nos bastidores.