A sequência de ataques públicos de Donald Trump ao papa Leão 14 reacendeu uma ferida antiga nas relações entre os Estados Unidos e o catolicismo. O episódio traz à tona recordações que vão do vandalismo anticatólico do século XIX — como o atentado com ácido numa igreja da Virgínia em 1898 — até a suspeita fundada entre líderes da Primeira República americana, que viam a Igreja como uma força potencialmente refratária ao projeto laico e iluminista do país.
Especialistas consultados lembram que a hostilidade dirigida ao Vaticano tem raízes profundas e pode ser reativada quando autoridades tratam líderes religiosos como adversários políticos. Historicamente, a reação contra católicos intensificou-se com as grandes ondas de imigração entre 1840 e 1880, e figuras públicas que desrespeitam o papado — como Trump já fez contra o papa Francisco no passado — tendem a abrir espaço para um novo ciclo de polarização religiosa. A personalização do conflito, com memes e declarações que transformam o pontífice em alvo político, amplia o risco de desgaste institucional.
Há também um componente institucional: desde os fundadores republicanos — pensadores do Iluminismo como Jefferson e Franklin — persistiu uma desconfiança em relação ao que era percebido como autoridade transnacional da Igreja. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica mantém tradição de intervenção em temas globais e morais, o que naturalmente a coloca em diálogo — e por vezes em tensão — com governos. Ao transformar críticas diplomáticas em embates públicos, a Casa Branca corre o risco de conflitar não apenas com lideranças religiosas, mas com parcela expressiva do eleitorado católico.
Politicamente, a ofensiva pode ter efeitos ambíguos para Trump: embora tenha historicamente recebido forte apoio de católicos conservadores, atacar o Vaticano pode alienar moderados e criar desgaste entre aliados que preferem manutenção de normas institucionais e de respeito a atores religiosos. A escalada expõe uma incoerência estratégica: a instrumentalização da fé como ferramenta de disputa política pode surtir benefício imediato junto a uma base leal, mas reedita velhas suspeitas que, quando acionadas, complicam alianças e aumentam o custo político de governar. Em termos institucionais, tratar o pontífice como rival é novidade em amplitude, e pode reduzir espaço de interlocução diplomática nos próximos capítulos da política externa americana.