Quase três décadas após a ovelha Dolly, pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP anunciaram o nascimento de um porco clonado, em 24 de março, em uma fazenda de Piracicaba. Segundo o grupo, é a primeira clonagem de suínos documentada na América Latina, e o leitão está saudável.

O feito é uma conquista técnica: o porco, porém, ainda não carrega as modificações genéticas necessárias para servir como doador de órgãos humanos. A etapa seguinte, dizem os cientistas, será implantar embriões com edições específicas — usando ferramentas como o Crispr-Cas9 — para reduzir a rejeição imunológica que historicamente impediu o xenotransplante bem-sucedido.

O tema tem antecedentes recentes fora do país: foram realizados quatro xenotransplantes nos Estados Unidos, com resultados mistos. O primeiro caso, de David Bennett em 2022, terminou com morte por rejeição tardia após 60 dias. Outros procedimentos mostraram limitações ou permanecem sob investigação, o que reforça a necessidade de cautela científica e regulatória.

No Brasil, a iniciativa foi estimulada pelo transplante dos custos e da dependência internacional: o médico Silvano Raia alertou que, sem um projeto nacional, o país poderia ficar refém de doadores estrangeiros e de tecnologia cara. Integrantes do centro, como a geneticista Mayana Zatz, afirmam buscar uma tecnologia '100% brasileira' para levar ao SUS, objetivo que implica desafios técnicos, éticos e orçamentários.

O avanço técnico abre caminho, mas não responde às questões centrais: eficácia a longo prazo, segurança clínica, regras de biossegurança e o impacto econômico para a saúde pública. Se bem-sucedido, o programa pode reduzir custos e oferta; se falhar, terá consumido recursos sem garantir benefícios ao paciente. A próxima fase, com embriões geneticamente modificados, será decisiva para testar se o sonho médico se converte em solução viável.