A Universidade de São Paulo foi anunciada como sede de um painel científico internacional criado para acelerar o abandono dos combustíveis fósseis. Batizada de SPGET (Scientific Panel for Global Energy Transition), a iniciativa foi lançada durante encontro climático em Santa Marta, na Colômbia, com o objetivo declarado de transformar evidências científicas e econômicas em recomendações práticas para acelerar a substituição de petróleo, carvão e gás por fontes limpas.
O grupo é coordenado por pesquisadores e especialistas de peso: o professor Gilberto Jannuzzi (Unicamp), a economista Vera Songwe — com experiência em finanças climáticas — e Ottmar Edenhofer, do Instituto Potsdam. A ideia, segundo organizadores, surgiu após pedido feito na COP30, em Belém, pela diretora-executiva daquela edição, e tem estímulo de nomes como Carlos Nobre e Johan Rockström, que lideraram o pavilhão de Ciência Planetária em 2023.
O SPGET opera com foco prático e prazo definidos — com ações previstas entre 2026 e 2035 — e divido em quatro grupos de trabalho: rotas de transição, tecnologias, desenho de políticas e finanças. A proposta é atualizar resultados anualmente e apresentar os primeiros relatórios na preparação para a COP31, em novembro. Mas a iniciativa enfrenta duas limitações claras: ainda não houve procura formal de governos ou entes subnacionais por apoio técnico, e a captação de recursos para ampliar o trabalho permanece em aberto, apesar de uma verba inicial para começar.
Do ponto de vista político, o painel pretende servir de ponte entre a ciência do IPCC e as análises de agências como a AIE e a IRENA, numa tentativa de tornar recomendações mais acionáveis. Ao mesmo tempo, membros do governo colombiano e organizadores alertaram para a pressão de interesses econômicos que podem desviar decisões públicas da evidência técnica. O fato de o Brasil sediar a iniciativa aumenta sua relevância política, mas também coloca sobre instituições e autoridades a necessidade de engajamento e financiamento para que o painel não fique restrito a diagnósticos, sem tradução em políticas concretas.