A morte, aos 90 anos, da roteirista Barbara Gordon voltou a lembrar um episódio que deveria fazer parte da memória profissional de médicos, empregadores e reguladores. Relatada por Ruy Castro e lembrada pelo New York Times, a história — ocorrida em 1975 — mostra como uma prescrição inadequada e a interrupção abrupta de benzodiazepínicos destruíram carreira e saúde de uma profissional reconhecida.

Na época, Gordon, 40 anos e premiada com um Emmy por documentários na CBS, recebeu do psiquiatra uma dose de diazepam de 30 miligramas por dia para tratar ansiedade. Segundo a literatura médica, doses tão elevadas são justificadas apenas em crises agudas e por curto período, sempre com desmame gradual. Mesmo assim, efeitos adversos comuns ao Valium — tontura, confusão, sonolência e perda de coordenação — se instalaram e comprometeram seu desempenho.

Quando pediu para interromper o uso, foi liberada para parar de uma vez sob a justificativa de que a droga “não provocava dependência”. A retirada abrupta desencadeou efeito rebote: pânico, tremores, vômitos, insônia extrema e risco de convulsões. Gordon passou por duas internações longas, foi afastada pela emissora e ficou incapaz de trabalhar por meses. A sequência de falhas no manejo clínico teve impacto direto em sua vida profissional.

O agravamento levou a uma busca por ajuda que só piorou o quadro: quase 20 psiquiatras a subdiagnosticaram com transtornos que, segundo relatos, traziam conotações sexistas. Retirada social e profissional, Gordon escreveu em 1977 o memoir I’m Dancing as Fast as I Can — que vendeu dois milhões de cópias — como denúncia dos riscos decorrentes de práticas dogmáticas e despreparadas. O livro não teve edição no Brasil, mas permanece como alerta.

A lição extrapola a biografia: o episódio exige debate público sobre protocolos de prescrição, treinamento médico, responsabilidade das instituições e direitos dos pacientes. Prescrições generosas, interrupções sem plano e diagnósticos apressados cobram um preço humano e institucional. Reguladores, conselhos profissionais e empregadores têm papel claro na prevenção de novos casos — e a memória de Gordon funciona como advertência.