A Copa do Mundo reacende a expectativa de uma segunda Black Friday para o setor de eletroeletrônicos: TVs de 65 polegadas ou maiores e celulares 5G — aparelhos mais caros e centrais para streaming dos jogos — entram no radar de promoção das redes. O lançamento do sinal interativo da chamada TV 3.0 também alimenta a demanda, mas o entusiasmo esbarra no outro lado da equação: o aumento do risco de calote.
Dados da pesquisa Radiografia da Inadimplência 2026, da CNDL e do SPC Brasil, mostram que 44,4% dos adultos estavam com alguma dívida em março — o maior índice desde o início da série, em 2015. A piora foi mais aguda entre quem ganha de três a cinco salários mínimos, cujo percentual de negativados subiu de 13% em 2025 para 20% em 2026. Entre os negativados, 82% trabalham (48% CLT, 23% autônomos e 11% empreendedores). As causas apontadas avançaram: cartão de crédito responde por 41% dos casos (ante 23% no ano anterior); empréstimos bancários por 26% (eram 16%); e crediário de lojas por 23% (12% antes). A pesquisa abordou 609 entrevistados online entre 6 e 17 de março, com margem de erro de 4 pontos.
No varejo, o dilema virou prática: restringir oferta de crédito para reduzir exposição ou alongar pagamentos para manter volume. Redes combinam limite mais rígido com mais parcelas sem juros — no Magalu, por exemplo, TVs 65 da LG aparecem em condições de até 21 vezes sem juros no crediário da loja. Indústria e distribuidores também depositam esperança em medidas fiscais: a isenção do IR para quem recebe até R$ 5.000 e a possibilidade de liberação de até 20% do FGTS podem soltar algum caixa para consumidores, solução vista como paliativa por empresários: a injeção estimada com a isenção (da ordem de R$ 30 bilhões, segundo declarações de operadores do setor) ajudaria, mas não elimina os efeitos de preços elevados e do consumo por impulso.
O quadro deixa o setor em terreno de risco: a Copa oferece janela para recuperação de vendas, mas operações muito agressivas de crédito podem ampliar perdas e comprometer margens. Para o governo, liberar recursos tem impacto fiscal concreto; para varejistas, a decisão é pragmática — ampliar vendas com cautela de crédito ou perder participação. A estratégia adotada nas próximas semanas deve definir até que ponto a temporada de jogos se transforma em receita segura ou em maior exposição a calotes.