O volume de vendas do varejo brasileiro voltou a crescer em fevereiro e atingiu novo recorde na série histórica iniciada em 2000, de acordo com o IBGE. O avanço foi de 0,6% na comparação com janeiro e de 0,2% ante igual mês do ano anterior — patamar que ficou aquém das projeções de mercado, que esperavam alta de cerca de 1% na margem.
O resultado mostra uma mistura de força e fragilidade: atividades ligadas a bens essenciais puxaram o desempenho, enquanto segmentos mais sensíveis ao rendimento real patinaram. Entre as variações mensais, subiram livros e papelaria (2,4%), combustíveis (1,7%), hiper e supermercados (1,1%) e artigos farmacêuticos (0,3%). Caíram equipamentos de informática (-2,7%), outros artigos pessoais (-0,6%), vestuário (-0,3%) e móveis (-0,1%). No comércio ampliado, que inclui veículos e material de construção, houve avanço de 1% em relação a janeiro.
Analistas e bancos privados interpretam o dado como sinal de que o varejo mantém resiliência graças ao mercado de trabalho relativamente sólido e a estímulos pontuais, como a isenção do imposto de renda para parte dos assalariados. Ainda assim, a surpresa negativa de fevereiro — concentrada no atacado de alimentos — reduz o ímpeto do setor e complica projeções de crescimento mais acelerado. O Banco Central já havia cortado a Selic em 0,25 ponto, para 14,75%, mas advertiu sobre limitações para novas afrouxamentos diante do cenário externo e de pressões inflacionárias.
Riscos vindos da guerra no Oriente Médio já pressionam preços de transporte e alimentos: o IPCA de março registrou alta elevada, enquanto o IBGE alerta que impactos sobre o comércio, se ocorrerem, tendem a aparecer primeiro nos combustíveis. Para o governo, o dado traduz duas mensagens: há base de consumo, mas o desempenho abaixo do esperado restringe margem para celebrar recuperação robusta e exige monitoramento das pressões de custo e da trajetória da inflação.