Saí do Cine Belas Artes com uma inquietação difícil de nomear. 'Vitória Régia', curta estrelado por Alice Braga e Ywyzar Tentehar, não oferece anestesia: em 21 minutos, prefere provocar reconhecimento a espetacularizar o desastre. A sensação que fica é a de assistir a um cenário possível — e por isso urgente.
O filme evita a figura do delírio distante e opta por ampliar rachaduras já visíveis. Ao sugerir um Brasil pós-golpe e uma Amazônia rebatizada como 'Amazon of America', a narrativa concentra-se na transformação do território pela lógica da mercadoria: rios, memórias e modos de vida reorganizados como rotas de extração. A violência ali mostrada impressiona pela plausibilidade, não pelo excesso cinematográfico.
A presença indígena no centro da obra não é cosmética. O canto guarani e as interpretações das atrizes indígenas não ilustram a trama; estruturam-na. Essa escolha reafirma que a resistência é histórica e material — atravessada por violência, promessas quebradas e persistência — e que a cultura sonora e visual é, para esses povos, instrumento de afirmação e defesa do território.
Como gesto político e cultural, 'Vitória Régia' acende alerta: não é apenas uma peça de crítica estética, mas um convite a encarar consequências reais de decisões públicas e econômicas. O curta tende a empurrar o debate sobre modelos de desenvolvimento, proteção de direitos territoriais e o papel da sociedade em não normalizar a apropriação do ambiente. Não resolve políticas, mas mapeia riscos que exigem atenção institucional e pública.