Romeu Zema (Novo) confirmou nesta quinta que seguirá com a pré-candidatura presidencial e que não abrirá mão da disputa mesmo diante de convites para composições como vice. Em evento em Pinheiros, na capital paulista, o ex-governador lançou diretrizes do que chama de um programa de governo — acompanhado por nomes ligados a Paulo Guedes e por dirigentes do Novo — e fez questão de se diferenciar de concorrentes de direita ao criticar práticas de nepotismo que, segundo ele, teriam ocorrido em gestões de adversários.
No núcleo das propostas está uma reforma ampla do Supremo Tribunal Federal: Zema defende mandato fixo de 15 anos para ministros, idade mínima de 60 anos, fim das decisões monocráticas e maior prestação de contas sobre atos da corte. O plano também prevê proibições para indicações ao Tribunal de Contas por vínculos partidários ou familiares e medidas de contenção de penduricalhos salariais. Entre as demais propostas anunciadas estão a anistia a Jair Bolsonaro e a manifestantes condenados pelo episódio de 8 de Janeiro, tratamento de facções criminosas como organizações terroristas, fim das ‘saidinhas’ de presos, redução da maioridade penal e propostas de flexibilização trabalhista e privatização da Petrobras.
Os anúncios ocorrem em meio a números pouco favoráveis nas pesquisas: no último Datafolha citado por sua equipe, Zema aparece tecnicamente perto de outros nomes do espaço conservador, com 4% das intenções, atrás de Flávio Bolsonaro (35%) e Lula (39%). O quadro expõe um dilema político: as medidas duras e a anistia buscariam deslocar votos à direita, mas também têm potencial de escalar confronto com o Judiciário e gerar custo político entre eleitores de centro. A defesa pública de liberar Bolsonaro de condenações e de mexer na arquitetura do STF tende a reforçar a imagem de candidato disposto a rupturas institucionais — estratégia que pode mobilizar base, mas também ampliar resistência em amplos setores do Congresso e do mercado.
A despeito do discurso de independência e do esforço para ocupar espaço à direita, Zema encara dois caminhos arriscados: tornar-se dependente dos fluxos eleitorais do bolsonarismo, reduzindo o apelo liberal-conservador que o projetou, ou persistir numa plataforma de reformas que dificilmente prosperará sem a construção de alianças sólidas. Para o Novo, a entrada mais explícita em disputas polarizadas exige calibragem: a coerência fiscal e o apelo por eficiência administrativa que o partido costuma defender podem ficar ofuscados por propostas que prometem choque institucional e custo político elevado nas vésperas de 2026.