A coluna de Elio Gaspari chama atenção para uma guinada retórica do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Ao aproveitar o aniversário da execução de Tiradentes para alvejar o Supremo Tribunal Federal, Zema reapresentou a Conjuração Mineira como instrumento de crítica institucional. Gaspari registra a mudança de tom em relação a declarações do próprio político no ano anterior e aponta um erro factual que enfraquece a narrativa usada.

Em 2023, Zema havia relativizado a imagem dos inconfidentes, sustentando que apenas Tiradentes teria confessado, ideia que Gaspari refuta com base em registros históricos: várias confissões e denúncias sobre o movimento existem, inclusive de figuras como Cláudio Manuel da Costa. Ao tomar agora o partido simbólico dos inconfidentes contra o 'establishment' de Brasília, Zema faz uma apropriação simplificada da história que carece de precisão e abre espaço para contestações factuais.

O episódio tem implicações políticas claras. Instrumentalizar um símbolo nacional para deslegitimar o Judiciário pode ampliar a simpatia entre setores anti‑STF, mas também expõe contradições e fragiliza argumentos em debates públicos, sobretudo quando a base factual é contestada. Para um político que busca alinhamento com correntes conservadoras e, ao mesmo tempo, manutenção de apoio amplo, esse tipo de discurso representa um cálculo arriscado.

Mais do que uma disputa de interpretações históricas, a nota de Gaspari ressalta um problema de estratégia: ataques institucionais sustentados por leituras imprecisas da história perdem eficácia e oferecem munição a adversários e a especialistas. O cenário exige, portanto, menos teatralidade simbólica e mais compromisso com fatos — sobretudo quando a arma retórica é usada para questionar a credibilidade de instituições centrais.